A VERDADE SOBRE O USO DOS ATALHOS |
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O uso do atalho consolida uma agressão à natureza.
É comum observarmos nas excursões que muitos iniciantes – e até mesmo guias experientes – fazem uso indiscriminado dos atalhos das trilhas. Instituindo uma prática depredatória e totalmente condenável sob o ponto de vista ecológico.
Os adeptos dos atalhos certamente o fazem para “ganhar tempo” e “encurtar caminho”, num gritante contra-senso com o próprio objetivo da excursão, que é exatamente o ato de caminhar e a possibilidade de usufruir ao máximo de um contato íntimo com a natureza, tão distante e não raro inacessível no nosso dia-a-dia. Porém, a dimensão real do problema não pára por aí – afinal, azar de quem vai para a montanha e carrega consigo as neuroses da civilização! A verdadeira questão tem uma abrangência muito maior do que podem imaginar esses apressados e nocivos caminhantes.
O uso do atalho consolida uma agressão à natureza, pois cria caminho preferencial às águas pluviais, que ao fluírem com violência em direção aos pontos mais baixos das vertentes, abrem sulcos cada vez mais profundos – denominados RAVINAS – desencadeando um processo erosivo que acaba por degradar o solo e desbarrancar as encostas.
Trilhas bem planejadas acompanham gradativamente as curvas de nível do terreno, desenvolvendo-se por linhas sinuosas que seguem o traçado de menor gradiente dos aclives e declives, sendo por isso pouco propícias ao escoamento das águas. Os atalhos, pelo contrário, por descerem abruptamente, quase sempre em linha reta, transformam-se em redes de drenagem das enxurradas, acarretando a escavação da terra e o arraste da vegetação.
Inúmeros são os casos que poderíamos citar. Por exemplo, a trilha normal do Pico da Tijuca tornou-se um labirinto de atalhos, e a erosão só não tem se manifestado com maior intensidade graças às grandes árvores do local, muito embora várias já apresentem suas raízes expostas. Em Petrópolis, as subidas do Morro do Queijo e o Chapadão da Isabeloca, ambas na caminhada para o Açu, encontram-se completamente desfiguradas, com o desaparecimento da antiga trilha e o surgimento de rampas escorregadias, nem sempre fáceis de serem vencidas em dias chuvosos. Em Teresópolis, embora a administração do PNSO tenha recuperado a trilha da Pedra do Sino e fechado seus diversos atalhos, nota-se que no trecho entre a Cachoeira do Véu da Noiva e o antigo Abrigo-3 ainda se usam muitos dos anteriores “corta-caminhos”.
È nosso dever – guias e participantes – intensificar e difundir uma consciência ecológica voltada cada vez mais para a preservação ambiental, procurando esclarecer todos, em particular aqueles que se iniciam no excursionismo, sobre a importância de contribuirmos para evitar a perpetuação de certas práticas já estabelecidas, inofensivas à primeira vista, mas que no fundo podem se mostrar tão danosas quanto esta que acabamos de discutir.
Mauro Maciel -
Publicado no Boletim do Centro Excursionista Brasileiro – CEB, em maio de 1991
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